Entrevista com Mário Ramos Vilela, diretor-presidente da CeasaMinas no período de 1972 a 1974

 

Mário Ramos Vilela
diretor-presidente da CeasaMinas no período de 1972 a 1974

Ele participou da 126ª edição do Café com Oração, promovido pela ACCeasa, no dia 02 de abril de 2019, quando se comemorou os 45 anos da CeasaMinas e foi citado, com manifestação de reconhecimento, pelo ex-ministro Alysson Paulinelli: “Ele foi o grande artífice na mudança, não só do paradigma, mas, principalmente, do conceito de abastecimento alimentar no Brasil”. O Jornal da ACCeasa teve o privilégio de entrevistar o ex-presidente da CeasaMinas, Mário Ramos Vilela, que esteve à frente da entidade no período de 1972 a 1974. Mário Vilela, que exerceu várias funções de direção no setor público federal, tendo sido presidente da COBAL, Chefe Geral da Embrapa Milho e Sorgo e presidente da CODEVASF, relembrou sua passagem pela CeasaMinas, ainda no início dos processos para sua instalação.

O ex-presidente exerce atualmente a atividade de consultor em projetos ligados à fruticultura e alerta para a necessidade de evolução nos processos de abastecimento alimentar. “Na década de 70, quando as Ceasas brasileiras se multiplicaram, o Brasil era importador líquido de alimentos e hoje alinha-se entre os três maiores exportadores internacionais de produtos agropecuários. Precisamos sair, ver nos países mais desenvolvidos, as evoluções em curso nas práticas comerciais, inclusive de produtos hortigranjeiros, cada vez mais focados nas necessidades e exigências dos consumidores e com o Sistema Alimentar, que envolve, além desses consumidores finais, produtores, distribuidores e outros prestadores de serviços de apoio aos processos que transformam produtos em alimentos. Informação, transformada em conhecimento, sempre em evolução, é a chave para a sobrevivência desses atores no mercado. Isso para não chegarmos à perplexidade de que mudou o mundo e não mudamos nós”.

Como o senhor se tornou presidente da CeasaMinas?
Fui o segundo presidente. Entrei em meados do mandado do primeiro, que resolveu sair. Quando cheguei lá estavam terminando a terraplenagem e, em seguida, começou a fase de edificação. Naquela época, eu trabalhava na hoje Emater/MG, no Cinturão Verde da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Estava no Rio de Janeiro fazendo um Seminário, na Fundação Getúlio Vargas e o então secretário de Agricultura, Alysson Paulinelli, convidou-me para assumir a presidência da CeasaMinas.

Fale sobre o início da CeasaMinas
Na organização da empresa mista havia dois acionistas principais, o governo estadual e o governo federal. Quando Alysson Paulinelli chegou à secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais, o governo federal estava em plena implantação desse sistema nacional de Centrais de Abastecimento SINAC. Foram definidas, para a primeira etapa, as 14 principais capitais, que já se defrontavam com problemas de abastecimento, exceto São Paulo e Pernambuco, que já possuíam Ceasas em suas capitais. Foram os precursores. O Governo de Minas aceitou a parceria. A presidência e o diretor administrativo eram representantes do governo do estado e os diretores financeiro e técnico, indicados pelo governo federal, nessa fase de instalação.

Os acionistas – Estado e União – receberam assistência técnica internacional espanhola, através da MERCASA e da FAO, além de cofinanciamento de uma organização de apoio ao desenvolvimento internacional, a USAID, dos Estados Unidos. Os projetos todos foram feitos padronizados, desde as edificações, até as práticas operacionais, só mudavam a dimensão. O governo do estado recebeu a incumbência de selecionar a área, juntamente com o governo federal: “Idealmente essas Ceasas devem ficar localizadas entre o 1º e o 2º Anel Rodoviário” (Belo Horizonte até hoje só tem um primeiro Anel e o segundo foi projetado próximo às atuais instalações do Entreposto de Abastecimento da CeasaMinas, ao lado da BR O40, no município de Contagem, mas ainda não implementado até o presente). A condição ideal é que não estivesse muito distante de rodovias, estaduais e nacionais, facilitando o acesso e redistribuição dos produtos comercializados ali, tal como ocorre na atualidade.

E como foi o processo de implantação?
Já na fase de edificação, quando foram construídos os primeiros pavilhões, foi iniciado o processo de implantação. Quando chegamos lá, começamos a fazer um trabalho que foi o diferencial de Minas Gerais. Sabíamos da resistência grande dos comerciantes em sair do Mercado Central e seu entorno, porque ali eles já tinham criado uma praça de mercado. Começamos a fazer um trabalho de orientação com os futuros potenciais comerciantes da Ceasa, explicando, por meio de um estudo, chamado Tempos e Movimentos, as vantagens de atuarem em um local que não teria as dificuldades crescentes de trânsito para recebimento dos produtos perecíveis – como são os hortigranjeiros, para depois fracioná-los. Citávamos, como exemplo, a movimentação de um caminhão de cebola, vindo de São José do Norte, no Rio Grande do Sul – ainda hoje um grande produtor nacional dessa hortaliça – que gastava 5 horas transitando ao redor do Mercado Central, para descarregar ali. O custo para o consumidor final, seria, claramente, muito alto. Foi isso que nos levou a estabelecer esse programa, ampliado para outras regiões. Hoje, praticamente todas as grandes capitais tem Ceasas, que totalizam 41, espalhadas Brasil afora.

Como eu tinha experiência em extensão rural, íamos conversando com os atacadistas. Toda semana a gente levava um grupo, mostrando que a Ceasa seria setorizada, facilitando bastante para quem queria vender ou comprar ali. Ficamos um ano fazendo esse programa, inclusive na Pedra – o Mercado Livre do Produtor -, que trabalha com produtos mais perecíveis. Estudamos muito, tivemos uma assessoria eficaz, inclusive internacional. Fomos muito bem treinados para isso, foi um ano de pré-operações.

Faltando 15 dias para o início das atividades no Entreposto da CeasaMinas, em Contagem, os orientadores de mercado avisaram sobre o sorteio das lojas, que deveriam atuar apenas com uma atividade, por meio de um contrato, denominado Termo de Permissão Remunerada de Uso. No dia da instalação não foi permitido recebimento de mercadorias no entorno dos Mercados Central e Novo, nas proximidades da Praça Raul Soares, em BH, e também, policiais treinados para não agredir ninguém, fizeram essa fiscalização, para que todos os comerciantes fossem receber a sua mercadoria na CeasaMinas, sua nova Praça de Mercado Atacadista, ainda hoje, Polo de Abastecimento que atraiu para suas proximidades, inclusive as Centrais de Distribuição das Redes de Supermercados que atuam na Região Metropolitana de BH.

Acredita-se que todos aqueles que continuassem com suas atividades de Atacado, na região do Mercado Central de BH, teriam que fechar o negócio porque, certamente, não haveria espaço para descarga e carga, na região central. A CeasaMinas foi a Central de Abastecimento que teve menos problemas na transição e deu menos prejuízo para quem compra e para quem vende.

O que representa, para o senhor, ter participado do início da história da CeasaMinas?
Para mim foi uma experiência fantástica, oportunidade essa que sempre agradeço porque pude aprender mais. Eu estudava esse assunto, desde muito tempo. Como extensionista, a partir de 1965, eu passava dois dias visitando feiras e outro dia ficava dentro do Mercado Central, para melhor orientar os horticultores do Cinturão Verde da Grande BH a produzirem não o que gostavam de plantar, mas sim, o que os Consumidores gostavam de comprar.

Como vê o processo do abastecimento na atualidade?
Como já disse o Pensador, Heráclito de Éfeso (500 anos antes de Cristo), “O mesmo homem não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, porque nem ele será o mesmo homem, nem o rio será o mesmo”. Mineiramente, dizemos hoje: águas passadas não movem o moinho. O mercado de hoje não é o mesmo de ontem. Mudou o mundo e não mudamos nós?